“Tem gente que ainda acha que sou transgressor. Escandaloso era, no auge do regime militar, um homem seminu, com uma pena de um metro no alto da cabeça, se requebrando e cantando fino”, diz Ney Matogrosso à repórter que lhe perguntou o que seria transgressor nos dias que correm.
A resposta de Ney começa com um “não faço ideia”. E talvez ninguém faça.
O Rock in Rio, uma arena perfeita para “transgredir”, chocou apenas por colocar Claudia Leitte no palco Mundo. Quando teve a oportunidade, antes de tocar a música Que país é este?, Dinho Ouro Preto (Capital Inicial) prestou um desserviço à sociedade. “Todo governo é ruim”, disse. Pensei até em vaiar, confesso. Mas o público foi ao delírio com o discurso do vocalista: “A gente descobriu que gostava de falar mal de qualquer governo, fosse ele de direita ou de esquerda. Todos são iguais. A regra básica é: nunca confie em político”.
O discurso de Dinho é a prova de que o Brasil vive um momento acomodado, compatível com a manutenção do status-quo. Enquanto marchas em defesa de Jesus, gays e maconha reunem milhões e milhares de pessoas, os gritos contra a corrupção são apenas isso: gritos.
As vassouras e a faxina viram broma entre os políticos. Afinal, não há previsão para mudanças relevantes: a reforma política continua longe, os currais eleitorais ainda existem, o fisiologismo reluta. Enquanto houver alguém bancando essa equação em todos os setores da sociedade, não só na política, isso não muda.
Se Ney Matogrosso pensasse melhor, talvez dissesse à repórter que para transgredir não basta gritar. O “sistema” tem que mudar de fora para dentro. Se tem um político recebendo propina para liberar uma obra, tem uma construtora pagando. Se há um policial corrupto, há um cidadão corruptor. Para deputados que compram voto, eleitores que vendem os seus.
Falar grosso pode não ser a melhor solução. Nessas horas, talvez seja melhor cantar fino… e requebrar.















